sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Tchau!

Bom, hoje (02/09) é o último dia de postagem do blog da Coletânea FB 2011. Eu gostei muito de produzi-lo e espero que vocês tenham gostado e aprendido mais sobre essa fantástica poetisa, pintora, educadora, cronista, enfim, sobre essa mulher tão especial e talentosa, que é nossa Cecília Meireles. Espero que vocês tenham aprendido e conhecido mais sobre a vida dela, sobre sua carreira, suas diversas facetas e vocações, seus amores, suas perdas, sua história e sua poesia. Gostei muito de fazer o blog e espero que vocês tenham curtido meus posts também! Enfim, obrigado por terem visitado e acompanhado.

"...Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha (...)"
Lua Adversa - Cecília Meireles


Com esse slide que eu fiz com algumas imagens de Cecília, eu encerro o blog. Obrigado e até o próximo! ;)


Lucas Holanda

Canção

Já que o tema da Coletânea FB deste ano é "Uma Canção Para Cecília", deixo aqui pra vocês uma das maravilhosas obras de Cecília que eu gosto muito.
Aproveitem!

CANÇÃO - Cecília Meireles
Nunca eu tivera querido
dizer palavra tão louca:
bateu-me o vento na boca,
e depois no teu ouvido.

Levou somente a palavra,
deixou ficar o sentido.

O sentido está guardado
no rosto com que te miro,
neste perdido suspiro
que te segue alucinado,
no meu sorriso suspenso
como um beijo malogrado.

Nunca viu ninguém
que o amor pusesse tão triste.
Essa tristeza não viste,
E eu sei que ela se vê bem
Só se aquele mesmo vento
fechou teus olhos, também...


É uma das minhas poesias preferidas. Espero que gostem :)

Batuque, Samba e Macumba

Vou deixar para vocês algumas imagens de Batuque, Samba e Macumba, título da primeira exposição de Cecília Meireles como pintora e desenhista.

(fonte: Michele Cunha)

Em suas obras, Cecília conseguia expressar a música e a gestualidade tão próprias do brasileiro por meio de seus traços.

Espero que gostem ;)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Você sabia que...

...Cecília Meireles assinou o Manifesto dos Pioneiros? Cecília foi uma grande militante da educação pública, laica e democrática. Ela atuou como colunista de diversos assuntos educacionais em jornais do Rio de Janeiro e, como já foi dito, foi formada em pedagogia e fundou a primeira biblioteca infantil do país!

De 1930 a 1933, Cecília assinou sua página diária na Páginas de Educação. Lá, ela já chegou a acusar o então ministro da educação, Francisco Campos, de medalhão e o então presidente, Getúlio Vargas de Sr. Ditador. Cecília não tinha papas na língua. Foram mais de mil artigos em que Cecília defendia o ensino religioso e a criação de escolas mistas, mesmo que, na época, as mulheres nem direito de voto terem.

Logo após isso, Cecília entrou no jornal A Nação, onde podia escrever sobre tudo, menos política. Na década de 40, escreveu para o jornal A Manhã, sobre folclore e, na década de 50, no Diário de Notícias, onde ocupava o famoso rodapé de literatura do "Suplemento Literário". Encerrou sua carreira na imprensa na década de 1960, na Folha de São Paulo.

Deixo aqui pra vocês duas ótimas crônicas de Cecília: Edmundo, O Céptico, de 1963 e Liberdade, de 1964. Espero que gostem :)


EDMUNDO, O CÉPTICO - Cecília Meireles
Naquele tempo, nós não sabíamos o que fosse cepticismo. Mas Edmundo era céptico. As pessoas aborreciam-se e chamavam-no de teimoso. Era uma grande injustiça e uma definição errada.
Ele queria quebrar com os dentes os caroços de ameixa, para chupar um melzinho que há lá dentro. As pessoas diziam-lhe que os caroços eram mais duros que os seus dentes.
Ele quebrou os dentes com a verificação. Mas verificou. E nós todos aprendemos à sua custa. (O cepticismo também tem o seu valor!)
Disseram-lhe que, mergulhando de cabeça na pipa d'água do quintal, podia morrer afogado. Não se assustou com a idéia da morte: queria saber é se lhe diziam a verdade. E só não morreu porque o jardineiro andava perto.
Na lição de catecismo, quando lhe disseram que os sábios desprezam os bens deste mundo, ele perguntou lá do fundo da sala: "E o rei Salomão?" Foi preciso a professora fazer uma conferência sobre o assunto; e ele não saiu convencido. Dizia: "Só vendo." E em certas ocasiões, depois de lhe mostrarem tudo o que queria ver, ainda duvidava. "Talvez eu não tenha visto direito. Eles sempre atrapalham." (Eles eram os adultos.)
Edmundo foi aluno muito difícil. Até os colegas perdiam a paciência com as suas dúvidas. Alguém devia ter tentado enganá-lo, um dia, para que ele assim desconfiasse de tudo e de todos. Mas de si, não; pois foi a primeira pessoa que me disse estar a ponto de inventar o moto contínuo, invenção que naquele tempo andava muito em moda, mais ou menos como, hoje, as aventuras espaciais.
Edmundo estava sempre em guarda contra os adultos: eram os nossos permanentes adversários. Só diziam mentiras. Tinham a força ao seu dispor (representada por várias formas de agressão, da palmada ao quarto escuro, passando por várias etapas muito variadas). Edmundo reconhecia a sua inutilidade de lutar; mas tinha o brio de não se deixar vencer facilmente. Numa festa de aniversário, apareceu, entre números de piano e canto (ah! delícias dos saraus de outrora!), apareceu um mágico com a sua cartola, o seu lenço, bigodes retorcidos e flor na lapela. Nenhum de nós se importaria muito com a verdade: era tão engraçado ver saírem cinqüenta fitas de dentro de uma só... e o copo d'água ficar cheio de vinho...
Edmundo resistiu um pouco. Depois, achou que todos estávamos ficando bobos demais. Disse: "Eu não acredito!" Foi mexer no arsenal do mágico e não pudemos ver mais as moedas entrarem por um ouvido e saírem pelo outro, nem da cartola vazia debandar um pombo voando... (Edmundo estragava tudo).
Edmundo não admitia a mentira. Edmundo morreu cedo. E quem sabe, meu Deus, com que verdades?)

LIBERDADE - Cecília Meireles
Deve existir nos homens um sentimento profundo que corresponde a essa palavra LIBERDADE, pois sobre ela se têm escrito poemas e hinos, a ela se têm levantado estátuas e monumentos, por ela se tem até morrido com alegria e felicidade.
Diz-se que o homem nasceu livre, que a liberdade de cada um acaba onde começa a liberdade de outrem; que onde não há liberdade não há pátria; que a morte é preferível à falta de liberdade; que renunciar à liberdade é renunciar à própria condição humana; que a liberdade é o maior bem do mundo; que a liberdade é o oposto à fatalidade e à escravidão; nossos bisavós gritavam "Liberdade, Igualdade e Fraternidade! "; nossos avós cantaram: "Ou ficar a Pátria livre/ ou morrer pelo Brasil!"; nossos pais pediam: "Liberdade! Liberdade!/ abre as asas sobre nós", e nós recordamos todos os dias que "o sol da liberdade em raios fúlgidos/ brilhou no céu da Pátria..." em certo instante.
Somos, pois, criaturas nutridas de liberdade há muito tempo, com disposições de cantá-la, amá-la, combater e certamente morrer por ela.
Ser livre como diria o famoso conselheiro... é não ser escravo; é agir segundo a nossa cabeça e o nosso coração, mesmo tendo de partir esse coração e essa cabeça para encontrar um caminho... Enfim, ser livre é ser responsável, é repudiar a condição de autômato e de teleguiado é proclamar o triunfo luminoso do espírito. (Suponho que seja isso.)
Ser livre é ir mais além: é buscar outro espaço, outras dimensões, é ampliar a órbita da vida. É não estar acorrentado. É não viver obrigatoriamente entre quatro paredes.
Por isso, os meninos atiram pedras e soltam papagaios. A pedra inocentemente vai até onde o sonho das crianças deseja ir (As vezes, é certo, quebra alguma coisa, no seu percurso...)
Os papagaios vão pelos ares até onde os meninos de outrora (muito de outrora!...) não acreditavam que se pudesse chegar tão simplesmente, com um fio de linha e um pouco de vento! ...
Acontece, porém, que um menino, para empinar um papagaio, esqueceu-se da fatalidade dos fios elétricos e perdeu a vida.
E os loucos que sonharam sair de seus pavilhões, usando a fórmula do incêndio para chegarem à liberdade, morreram queimados, com o mapa da Liberdade nas mãos! ...
São essas coisas tristes que contornam sombriamente aquele sentimento luminoso da LIBERDADE. Para alcançá-la estamos todos os dias expostos à morte. E os tímidos preferem ficar onde estão, preferem mesmo prender melhor suas correntes e não pensar em assunto tão ingrato.
Mas os sonhadores vão para a frente, soltando seus papagaios, morrendo nos seus incêndios, como as crianças e os loucos. E cantando aqueles hinos, que falam de asas, de raios fúlgidos linguagem de seus antepassados, estranha linguagem humana, nestes andaimes dos construtores de Babel...

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Cecília Meireles: Pintora

Oi, gente!
Agora quero falar pra vocês mais sobre a Cecília Meireles como pintora.

Suas obras tiveram repercussão, principalmente, em Lisboa. Devido ao tamanho sucesso, suas obras vinham sendo publicadas por uma revista chamada Mundo Português. Apesar do sucesso estrangeiro, suas obras só vieram ser conhecidas no Brasil, na forma impressa, em novembro de 1983, devido à comemoração dos cinquenta anos de sua primeira exposição artística (1933). Essa publicação aconteceu sob o patrocínio da Funarte e do Banco Crefisul, com tiragem reduzida e não-comercial, com o título Batuque, Samba e Macumba. Uma maior circulação desse trabalho, na forma editada, só aconteceu em 2003.

Essa face de pintora de Cecília talvez não tenha tido tanta repercussão quanto sua face de poetisa porque em 1935, após perder seu marido, Fernando, que era desenhista, a face de pintora de Cecília foi perdendo sua cor, até desaparecer.

É isso. Espero que tenham gostado. Até mais ;)

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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Uma crônica de Cecília

Bem, eu me dei conta de que nunca havia postado nenhuma crônica de Cecília aqui no blog. Mas aí vai uma que eu achei muito interessante:


O FIM DO MUNDO - Cecília Meireles
A primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo que não me interessava nem o seu começo nem o seu fim. Lembro-me, porém, vagamente, de umas mulheres nervosas que choravam, meio desgrenhadas, e aludiam a um cometa que andava pelo céu, responsável pelo acontecimento que elas tanto temiam.

Nada disso se entendia comigo: o mundo era delas, o cometa era para elas: nós, crianças, existíamos apenas para brincar com as flores da goiabeira e as cores do tapete.

Mas, uma noite, levantaram-me da cama, enrolada num lençol, e, estremunhada, levaram-me à janela para me apresentarem à força ao temível cometa. Aquilo que até então não me interessava nada, que nem vencia a preguiça dos meus olhos pareceu-me, de repente, maravilhoso. Era um pavão branco, pousado no ar, por cima dos telhados? Era uma noiva, que caminhava pela noite, sozinha, ao encontro da sua festa? Gostei muito do cometa. Devia sempre haver um cometa no céu, como há lua, sol, estrelas. Por que as pessoas andavam tão apavoradas? A mim não me causava medo nenhum.

Ora, o cometa desapareceu, aqueles que choravam enxugaram os olhos, o mundo não se acabou, talvez eu tenha ficado um pouco triste - mas que importância tem a tristeza das crianças?

Passou-se muito tempo. Aprendi muitas coisas, entre as quais o suposto sentido do mundo. Não duvido de que o mundo tenha sentido. Deve ter mesmo muitos, inúmeros, pois em redor de mim as pessoas mais ilustres e sabedoras fazem cada coisa que bem se vê haver um sentido do mundo peculiar a cada um.

Dizem que o mundo termina em fevereiro próximo. Ninguém fala em cometa, e é pena, porque eu gostaria de tornar a ver um cometa, para verificar se a lembrança que conservo dessa imagem do céu é verdadeira ou inventada pelo sono dos meus olhos naquela noite já muito antiga.

O mundo vai acabar, e certamente saberemos qual era o seu verdadeiro sentido. Se valeu a pena que uns trabalhassem tanto e outros tão pouco. Por que fomos tão sinceros ou tão hipócritas, tão falsos e tão leais. Por que pensamos tanto em nós mesmos ou só nos outros. Por que fizemos voto de pobreza ou assaltamos os cofres públicos - além dos particulares. Por que mentimos tanto, com palavras tão judiciosas. Tudo isso saberemos e muito mais do que cabe enumerar numa crônica.

Se o fim do mundo for mesmo em fevereiro, convém pensarmos desde já se utilizamos este dom de viver da maneira mais digna.

Em muitos pontos da terra há pessoas, neste momento, pedindo a Deus - dono de todos os mundos - que trate com benignidade as criaturas que se preparam para encerrar a sua carreira mortal. Há mesmo alguns místicos - segundo leio - que, na Índia, lançam flores ao fogo, num rito de adoração.
Enquanto isso, os planetas assumem os lugares que lhes competem, na ordem do universo, neste universo de enigmas a que estamos ligados e no qual por vezes nos arrogamos posições que não temos - insignificantes que somos, na tremenda grandiosidade total.

Ainda há uns dias a reflexão e o arrependimento: por que não os utilizaremos? Se o fim do mundo não for em fevereiro, todos teremos fim, em qualquer mês...


Essa crônica e essa imagem eu vi aqui. :)

Curiosidade: A assinatura de Cecília Meireles

Oi, gente!
Eu estava nuns blogs e me deparei com uma curiosidade muito interessante: a assinatura de Cecília. Eu, particularmente, nunca havia visto, mas deixo aqui a imagem pra vocês que tiverem essa mesma curiosidade de ver que eu tive:


Até mais :)